Categoria: Poesia

Eu, o juiz!

Garoeiro – Natal, RN, 2 de abril de 2016.

O juízo de honrar jurisprudência,

Vou queimando nas chamas da entrevista,

Convertendo a defesa, em ingerência,

Contra esta consolidação jurista.


E, quando imponho à lei, minha regência,

Socorre-me de vista e de revista,

Da nefasta presunção de inocência,

Paradigma fundamentalista.


Vejo, a passar, vosso rio de argumento,

Por estes autos, sobre cada linha,

Apor, querendo, ao meu julgamento,


Vãs verdades, que a decisão não tinha,

Às quais, nego, de pronto, provimento,

Pois, para mim, só me interessa a minha!

Primeiro de Abril

Garoeiro – Natal, RN, 1º de abril de 2016.

Ver ao humor, tosca mentira atada,

Para criar espantosa corrente,

É o que fez, este, o dia da piada,

E, então, a vida dura, mais contente.


E, o festival de mentira engraçada,

Pelas diversas galeras da gente,

Multiplicando a absurda risada,

Faz todo o mundo rir, do que se mente.


Vendo, porém, depois de tantos anos,

Sob a acumulação de desenganos,

Choro, não riso, em tudo, como vejo,


Sei que esse dia perdi,  no  caminho,

Pois, acompanho o diário cortejo,

Mas, me sinto cada vez mais sozinho…

Cancerose

Garoeiro – Natal, RN, 31 de março de 2016.

Seja em órgão, em tecido,

Jamais, uma neoplasia,

Trai o intrínseco vestido,

Inocente, à revelia.


Sempre, o dano, pervertido

Em mascarada franquia,

Abre curso ao mal contido,

Atrás de falsa magia.


De são, a doente, o havido,

A saúde desafia:

Câncer há, nunca nascido

Em nossa vida sadia.


Mas, por pouco conhecido,

Grassa um câncer de apatia:

Por tantas almas, querido,

Por tanta alma vazia…

Vídeo nº 117 – Aprendizagem amarga

Sonhando contra…

Garoeiro – Natal, RN, 29 de março de 2016.

Contra o vivido, a negação sonhada,

Essa fuga que a gente idealiza,

Ante a blindagem da ilusão, negada,

Qual bem, a dor da vida, minimiza?


Com qual, se em minha vida toda, a escada,

Deu-me, jamais, uma subida lisa?

Meu raro objetivo da jornada,

Sequer, meio por cento, prioriza.


Porque o medo, porém, nossa atitude,

Não fôra a coragem uma virtude,

Minasse-nos qualquer enfrentamento,


Bem de futuro, dá-nos salvamento:

Sonhos, sonhando, noutra vida, além,

Do bem que vemos, e que ninguém tem!

Fofocas

Garoeiro – Natal, RN, 28 de março de 2016.

Veem escorrer por seus dedos,

Os momentos mais sagrados,

Que, com requintes azedos,

Por casais, são comentados.


Quem vai dizer que eram ledos

Tantos folguedos passados,

Depois das iras e medos

Com que acabaram brigados?


Separados, seus enredos

São, vilmente, fofocados;

Mas, da alcova, os bons segredos,

Qual rancor põe revelados?

Pobres poetas…

Garoeiro – Natal, RN, 27 de março de 2016.

Tanto bem, tanto sonho, tanta gente,

Embala, em vão, o que o poeta canta,

Se seu verso, que o tempo todo, encanta,

Dispõe, o mundo imposto, inconveniente.


Por tudo ser tão subserviente,

Aqui, jamais, a causa dele, adianta,

Sob o nexo que nunca decanta,

Nem vai fundo no que sabe a mente.


Nada, pois, poesia, assim dizer,

Cria influência nestes universos,

Blindados a um valor que os despedace.


Só que eu também não fiz por merecer,

A amar a grande musa de meus versos,

Que, mais que eu, à poesia amasse.

Queda livre

Garoeiro – Natal, RN, 26 de março de 2016.

Como alguém, para quem fosse

Suicídio, o fim mais doce,

Eis, que me vi despencar,

De lá, do último andar.


Brigando, imediatamente,

No vulcão dentro da mente,

Disputavam sua sorte,

Minha vida e minha morte.


Em lágrimas, grita, a Vida:

- Deixe-me, que fui perdida!

E, a Morte: – Chora, quem quer,

Mas, será quando eu quiser!


Aproveitando o impasse,

Entre quem mata, e a que nasce,

Foi renascido que vim

Daquele sonho ruim…

Dono da Lei

Garoeiro – Natal, RN, 25 de março de 2016.

Quem, sem se dar ao respeito,

Dá, a juiz, poder augusto,

Querendo tirar proveito,

Labora em erro robusto.


Só a lei tira de eito

O processo, com seu custo,

No exercício do direito,

Estabelecendo o justo.


Dono da lei, com efeito,

Esculpe forjado busto,

Condenando, desse jeito,

Réu julgado a medo e susto.

Nada além de uma ilusão…

Garoeiro – Natal, RN, 24 de março de 2016.

A  lucidez  é  cega  a  céu  e  chão,

Olhando sempre à frente, o horizonte:

Na mente, mata sonho com razão,

Porém, jamais, lucidamente, é fonte.


O  gosto  bom  da  mente,  é  invenção,

Ir pondo, ente chão e céu, uma ponte:

Feliz, quando se enche de ilusão,

Isenta do que raciocínio aponte.


Lá, no remoto umbral de antigamente,

A derramar de tanto sonho a mente,

Todo o mundo vivia imaginando.


Mas, agora, imperando a lucidez,

A magia da vida é esta aridez,

Nem se sabe viver fantasiando…