Categoria: Poesia

Lu Nóbrega

Garoeiro – Natal, RN, 18 de agosto de 2015.

Sonho  demora,  escorrega,

Com quase nada  é  refeito…

Porém, a vida navega

Num cada vez mais estreito…


Hoje a maldade emprega

Valor que vai sendo aceito,

Por uma existência cega,

Vivida no preconceito.


O que essa onda prega

É que Amor não tem mais jeito:

Amar, vira coisa brega,

Paixão,  o  pior  defeito!


Mas,  gosto que amar carrega,

Quando o mal logra desfeito,

Na gostosura se esfrega,

E,  ressuscita,  refeito…


Meu exemplo se desprega,

Como um êxtase perfeito,

Que em novos pagos trafega,

Onde,  a  ouvi-la,  me  deito.


Já,  meu sonho nada nega,

Vou gozando no meu leito,

Acre  canto  de  Lu  Nóbrega,

Timbre de puro conceito…

Contra austeridade!

Garoeiro – Natal, RN, 17 de agosto de 2015.

Onde,  a  assassina  raiz,

Que cresce, sugando a gente,

Para um burguês mais feliz,

Maneja o seu nutriente?


Nos enganos do discurso

Do moderno, do mais novo:

A austeridade é o recurso

Da Economia antipovo.


Pinçam palavras malditas,

A serviço do embuste,

Como essas falas bonitas

Da maldição do  ajuste.


Nada se desregulamenta:

Códigos são revogados

Para a conta que acrescenta

Mais, ainda, aos abastados.


Já, redução de jornada,

Reajuste de salário,

Morrem na negociada

Gestão do intermediário.


Dos interesses, o jogo,

Dissolve a regra que vige

Alegando desafogo,

Pela que o patrão exige.

Olhos de ver…

Garoeiro – Natal, RN, 16 de agosto de 2015.

A propensão ao fascismo

Disfarça o que a enseja;

A essência do mecanismo

Chega, antes que se veja…

Prega como inconformismo,

A intolerância, sobeja,

Destilando ceticismo,

Pondo azar no que fareja,

Cheia a alma de egoísmo,

Quanto o coração de inveja…


Ouvindo a rua, então, cismo:

Mudo Bem, o Mal corteja…

Vigência

Garoeiro – Natal, RN, 14 de agosto de 2015.

De tão falsa a vida imposta,

Mercantil mundo perverso,

Que hoje todo o mundo aposta

Ter, na droga, algo diverso.


São: fumo, bebida, pó,

As tentativas de fuga

Da ordem que não tem dó,

Do que esmaga e subjuga.


Para uns poucos, toda a festa,

Tudo, a poder de dinheiro;

Se quem é pobre não presta,

Para que ter paradeiro?


Na solução de fugir,

Cada dose é mais escura

E o que nos faz prosseguir

É essa fé na ruptura.


Tanta classe em divisão,

Na legislação fajuta,

E um governo que, em vão,

Põe vaselina na luta.


Só vivendo desligado,

Seja bebendo ou cheirando,

O brasileiro é filmado

Alegre, de vez em quando…


Mas, nem tudo é precipício,

Nem sempre é fuga beber:

Ao que não bebe por vício,

Conta melhor perceber.


E é desses raros chapados,

Quando captada a essência,

Que os futuros são achados,

E exterminada a vigência.

Alien…

Garoeiro – Natal, RN, 13 de agosto de 2015.

Quase tudo o que se sente

É um efeito da frequência:

Réus de um mundo aparente,

Naufragamos na aparência.


Enquanto,  à  única  lente,

Evitamos a evidência

Do que flui, interiormente:

Ter consciência da essência.

Amor de velho…

Garoeiro – Natal, RN, 12 de agosto de 2015.

Pôr meu coração hermético,

Um pouco mais, todo dia,

Eis, o jogo dialético

Que amar me prenuncia.


Se só, sinto-me patético,

E anseio ter parceria;

Ouvindo-as, fico cético

De mais outra companhia.


Minha vida inteira, ético,

Inda outra eu amaria,

Mas meu domínio poético,

Uma a uma, esvazia…

Entulho da ditadura

Garoeiro – Natal, RN, 11 de agosto de 2015.

Em toda a Grande História é sempre igual

O embuste do juízo arbitrário:

Sentenciar,  pelo  judiciário,

O mais fraco da luta social.


A toga,  serva  do  poder  real,

Dos bandidos do mando argentário,

Traveste a luz da lei no seu contrário,

Fraudando a decisão do tribunal.


E, quando, agora, como estamos vendo,

Exibe os ricos que está prendendo,

Na mídia suja, achando que fatura,


Mais o togado embuste nos convence

Que a putrefata máquina forense

É entulho que restou da ditadura!

Outra ilusão…

Garoeiro – Natal, RN, 10 de agosto de 2105.

Quando me deixo abater

Pela tristeza do amor,

E choro de tanto ver

O caos desesperador,

Sinto desaparecer

Meu vigor versejador

E a lira não poder

Mais cantar ao seu cantor.


Sem razões para alegria,

Inda assim, bem que resiste

Meu peito à melancolia,

E à sombra do mal que insiste

Em calar-me a poesia,

Insistindo em me ver triste,

Com a alma em agonia

Pelo que no mundo assiste.


Mas, no fundo da tristeza,

Bem mansa ilusão, quieta,

Quem sabe, irmã da Beleza,

Vem lumiando, discreta,

Essa apagada proeza

Na escuridão incompleta,

E a poesia volta, acesa,

Ao coração do poeta!

Em sociedade…

Garoeiro – Natal, RN, 9 de agosto de 2015.

Meu peito já de tanto maltratado,

Não suporta uma nesga de descaso,

Que percebe num gesto ao acaso,

Pior que se fosse apunhalado.


Não dói ter sido tão menosprezado

Ao que entende que todo o pouco caso

É sempre o medo de um valor bem raso,

Ante mais alto bem valorizado.


Perdi, porém, a conta da quantia

Dos ferimentos que a hipocrisia

Teima em sangrar meu coração traído.


Que, agora, do desprezo, o menor risco,

Pronto, repele a ocasião, arisco,

Esquivo e só, porém, não corrompido…

Doutorado

Garoeiro – Natal, RN, 8 de agosto de 2015.

O  Tempo,  meu  professor,

Vive rindo do que ensina,

Em seu curso arrasador,

Tendo o Nada por doutrina.


Riu,  ao ver-me dar valor,

A um sonho que não termina;

Da validade, censor,

Invalida e elimina.


O meu Orientador,

A cada lição que opina,

Vem instar-me ao seu louvor

Dos finais,  que  o  ser  culmina.


Nexo, que me faz supor,

Sempre, a cada sabatina,

Que nunca serei doutor

Na pesquisa da ruína…