Categoria: Poesia

Carinho

Garoeiro – Natal, RN, 5 de março de 2015.

[Para: Dalva, no seu aniversário!]

Tendo amor, desde o início,

Vi que o bom do precipício

Era o gosto do carinho.


No egoísmo da insolência,

Passei minha adolescência

Na volúpia do carinho.


Da experiência, a escola,

Abriu todo o bem que rola

Na constância do carinho.


Que ousou nova resposta

Fora do que já se gosta,

No adultério do carinho.


E, refém da variedade,

Deu-me gozo, à saciedade,

Em seu auge, o carinho.


De modo que, simplesmente,

Resume a vida da gente

A história do carinho.


Quanto  agora,  solitário,

Ser só meu sonho diário

A  saudade  do  carinho…

Maledicência

Garoeiro – Natal, RN, 4 de março de 2015.

Tão cantor do amor sincero,

E ama, agora, em soma zero.

Mais que de amar quem souber,

Conta amor que convier.


O que gosta todo o mundo,

Vive preso, bem no fundo:

Aceita-se o que vier,

E seja o que Deus quiser…


Foi um amante incomum,

Mas, diz dele qualquer um:

-  Vive  há  anos  sem  mulher,

É tão bom que ninguém quer…

Ferroada venenosa

Garoeiro – Natal, RN, 3 de março de 2015.

“Tu foste o erro que me fiz sonhando amar!”

Eis,  seu epitáfio,  tramado uma semana…

Mais que o sentido, era o veneno que emana

Da frase, o jogo em que queria se expressar.


Já que não pudera viver sem se magoar,

De íntimo crédito à intriga de fulana,

Cruel, quisera provocar, sendo tirana,

Se vingar na desforra ao sentenciar.


Para seu  ex, após a dor do ferimento,

Admirado da expressão de sentimento,

Fôra slogan escolhido para estandarte.


Sós,  ambos  se  acham, na invenção sentenciada;

Mas, inda que houvesse perdão de parte a parte,

Prevalece a provocação envenenada.

Os alvos…

Garoeiro – Natal, RN, 02 de março de 2015.

Quem o Grande Amor encerra,

Mata, além das coisas boas,

A Amizade que desterra,

De dezenas de pessoas.


Numa espécie de torcida,

Amavam o amor dos dois:

Vitimados, sem saída,

Cumprem exílio, depois.


Sabe a Paixão dominante,

Cercar-se, devidamente:

Traz perto do par amante,

Contente, um monte de gente.


Por isso, o golpe fatal,

Junto ao sofrer que desaba,

Ao separar o casal,

É com mil sonhos que acaba…

O lagarto e a andorinha

Garoeiro – Natal, RN, 1º de março de 2015.

Fui,  ao  vê-lo,  ajoelhando,

Mas o lagartinho arisco,

Me disse, quase chorando:

- Calçada, muro, chapisco,

Tudo, sempre rastejando!

Triste vida de corisco,

Sem o que anseio sonhando:

Viajar sobre o obelisco,

Como a andorinha, voando!


Pousou, ouvindo aquilo,

A andorinha, no postigo.

- Não se voa por estilo!

Eu sofro porque persigo

O que o chão guarda em seu silo.

Se voar é meu castigo,

Mais queria andar, sem grilo,

Como o lagartinho amigo…


O eucalipto, depressa,

Duramente indignado,

Grita, bem alto: “Sem essa!”

- O mundo tem funcionado

Pelo que é cada peça!

O destino planejado,

Que sonho nenhum expressa,

Jamais pode ser trocado!


Da mão e a mágica pena,

Pronto, a árvore calei,

Petrificada na cena!

Com as asas que lhe dei,

Voa o lagarto à antena.

Da mesma pena que usei,

A andorinha pequena,

Saiu correndo sem lei…

Garoeira memória

Garoeiro – Natal, RN, 28 de fevereiro de 2015.

Nos amamos tanto, tanto,

Era do tipo que espirra…

Quando foi, estava em pranto,

Creio, talvez, só de birra…


Outra, achada num deserto,

Garoei chuva e saraiva;

Hoje laiva o custo incerto

De me deixar só de raiva…


Da mais amada de tantas

Espanta, ao fim, o fiasco:

Fingia virtudes santas,

Mas me traiu só de asco…

Joaquim, o acusador…

Garoeiro – Natal, RN, 27 de fevereiro de 2015.

Foi por protocolo sem,

Que Joaquim fez constar

Trem com que se cala alguém.


Julgador vira refém,

Se com capangas contar,

Em Diamantino, também.


Pois é crime o que mantém

A jagunçada a julgar

Na sentença que convém.


Juiz que jagunços tem,

A Justiça Popular

Vê o Mal julgando o Bem.


Porém, da Corte ao Harém,

Por se tratar de Gilmar,

Não abre a boca ninguém…

Tributo à Ré…

Garoeiro – Natal, RN, 26 de fevereiro de 2015.

Onde andará Simone Vasconcelos?…

Com o tempo, minha memória esgarça…

Virariam já os milhões, farelos?

Será que se rende ao Grande Comparsa?

Ou, já posto o show, romperam-se os elos?

Não posso esquecer seu porte de garça…

Porá em quem aqueles olhos belos?

Que anda lendo que o drama disfarça?

Que príncipes sonha e em que castelos?

Ou são pesadelos da grande farsa?

Quem chora por Simone Vasconcelos

Crucificada na sentença esparsa?…

Quem tratará, meu Deus, de seus flagelos,

Que Defensor mineiro,  qual  Gaiarsa?…

Estilingue

Garoeiro – Natal, RN, 25 de fevereiro de 2015.

A ganância da Riqueza

Faz o mundo ser um ringue:

Jaz, nas cordas, a Beleza,

E, na lona, Amor extingue…


No curso da correnteza,

A grande ilusão que respingue

Um dia a Fortuna obesa,

Cala quem lute, quem xingue…


Só  meu  canto  tem  certeza

Que  o  igual,  na História,  vingue,

E a desigualdade,  ilesa,

Miro,  com  meu  estilingue…

Depois que o amor acaba

Garoeiro – Natal, RN, 24 de fevereiro de 2015.

Amar é muito bom, melhor que tudo,

Em pleno amor, a gente só viaja,

E a determinação cria um escudo

Defensor, que verdade alguma ultraja.


Gostando da ilusão com que me iludo,

Numa cumplicidade que se engaja,

Pelo mar desse interagir miúdo,

Quedo, sem deixar que a razão reaja.


Mas esse núcleo é quebrado um dia,

E assimilar o horror desse momento

Descarta quer coragem, covardia.


Principalmente, se após o evento,

Assim, ela resume o prejuízo:

- “Desse teu triste amor, eu não preciso…”