Categoria: Poesia

Idioma

Garoeiro – Natal, RN, 29 de setembro de 2014.

Prenda minha

Nem Aníbal, na devastada Roma,

Logrou tão corroído paradeiro,

Qual o que a banca faz que a gente coma,


Na enorme roubalheira que se assoma,

Roubando, sem parar, o ano inteiro,

Nada escapa aos banqueiros de Sodoma:


Tudo o que vale, dentro da redoma,

No solo e subsolo marinheiro,

Sugam, para grudar na mesma goma.


Pois que me levem mesmo este aroma

Das glórias do meu povo companheiro,

Cheiro da morte que sucede ao coma,


A Amazônia, com todo o seu bioma,

Que sobreviverei, bem brasileiro,

Na eternidade do meu Idioma!

Novo encontro

Garoeiro – Natal. RN, 28 de setembro de 2014.

Vou vivendo

Já perco a única irmã

Para o insano dominante,

Mas me salva o Vietnã,

No sul da Ásia distante.


Minha Dung Nguyen Quang,

Boa irmã e boa amante,

Tem o gosto da romã

E este cheiro inebriante.


Não terá perdição vã

Quem no amor massageante

Perde o ontem e o amanhã

Só pelo gozo durante…


Eis, porém, tchan, tchan, tchan, tchan:

Ouvindo a flauta de Pan,

Abri os olhos de manhã…

Minhas lágrimas

Garoeiro – Natal, RN, 27 de setembro de 2014.

Chorando baixinho

Não sou bem de chorar, mas também choro,

Vendo gente a sofrer no mundo inteiro,

O falso derrotando o verdadeiro,

E, os pobres miseráveis, donde moro.


Da rara alegria a que me arvoro,

Eu lacrimejo, alegre, ante o rasteiro,

Pois vejo Deus em todo o corriqueiro,

Sob amor de olhar, com que o resplendoro.


Desse meu pranto não me envergonho,

Conquanto eu quis meu mais alegre sonho,

Reunião de esperanças separadas.


Se é coletivo o contentamento,

Quão descontente o isolamento,

Sejam minhas lágrimas perdoadas…

Caminhando

Garoeiro – Natal, RN, 26 de setembro de 2014.

Valsa do Porto das Caixas

Caminhando todo dia,

Eu respondo a quem pergunte,

Que a ida é minha alegria,

Neste gozo transeunte.


Mas no mar cidade imerso,

Que desafogo me solta,

Se por caminho diverso,

O mundo novo da volta.


Porém, mesmo volta igual,

Pelo percurso de ida,

Que beleza colossal

Passara despercebida.


Fora, andar, essencialmente,

Vendo o que mais desejais:

Ir ficar, eternamente,

E não voltar nunca mais!

Blog

Garoeiro – Natal, RN, 25 de setembro de 2014.

Polquinha Sapeca

Sei bem porque desdém, porque desprezo

O que escrevo tem tanto convocado:

Desacredito o certo, por um lado,

E torno o razoável, indefeso.


A cada tiro que em meu verso é aceso,

De amor ou de furor mobilizado,

O gosto comandante e o comandado

Derramam festivais em contrapeso.


Mas inda que nem chova em minha horta,

Hei de me vos escrever, que é o que importa,

Se o bem maior do que venho a compor


Pode ver tudo o que amo repartindo,

De anônimo milagre ressurgindo,

Em  teu  peito,  também,  ó  meu  Leitor!

Último anseio

Garoeiro – Natal, RN, 24 de setembro de 2014.

Eu achei, no apogeu do sentimento,

Insaciável,  bem de que me farte,

Quando fiz do amor o maior alento,

E da Poesia,  o  meu  estandarte.


Se no amor jamais tive provimento,

Não sem também prová-lo em toda parte,

Tampouco sinto crer neste momento,

De salvação capaz, a minha arte.


Por onde vejo tudo iluminar,

Há um só pensamento a me socorrer

Nesta fímbria de sonho a se esgotar:


Fugir-me,  velho,  ao  moço que quis ser,

No Jardim das Delícias me encontrar,

Perdido no Princípio do Prazer!

Chão sempre florido…

Garoeiro – Natal, 23 de setembro de 2014.

Borzeguim

De manhã passeio a fim

Deste encanto que me apraz

De andar num chão de carmim,

Tão florido, que refaz

O velho gozo mirim…


Ah, prazeres de alecrim,

De meu tempo de rapaz,

Nos perfumes do jasmim

E, do amarelo ao lilás,

Só flores, grama e capim…


Ver tudo virar jardim,

Clama, em seu verso sagaz,

Quando lá, no “Borzeguim”,

Quer mato crescendo em paz,

Meu bom  Mestre,  Tom  Jobim!


Das caminhadas que vim,

Têm meus olhos quão veraz,

No Poeta-Passarim,

Tocava o olhar que traz

O mato florido assim.


Vir limpeza urbana, sim,

Reste a calçada, capaz;

Porém, vinde, ó mato, a mim,

Brotando, tão pertinaz,

No esplendor do chão, enfim!

Sonho do Amor

Garoeiro – Natal, RN, 22 de setembro de 2014.

A gente começa amar e, de repente,

Palpita aquele anseio ultrapassante,

Que, além do sonho dum casal contente,

Fica sonhando o mundo inteiro, amante!


Quem ama quer feliz a toda a gente,

Amando de paixão contagiante;

Mostra que Amor pretende, unicamente,

Juntar tudo numa união gigante!


Só que o mundo prefere ser mesquinho,

Pois cobra caríssimo juntar,

E vende separação, baratinho.


Em termos de amor, só pode deixar

Quem quer amar muito, acabar sozinho,

E tanto casal junto, sem se amar…

Jornada

Garoeiro – Natal, RN, 21 de setembro de 2014.

Da vida, a dificuldade,

Não vem de pequenos nadas

Em que vive a Humanidade,

Mas, só das condições dadas.


Queremos felicidade,

Fome, sede, saciadas;

Porém, o mal nos invade,

Ante as coisas dominadas.


Prevalece a insanidade;

E, às ações praticadas,

Poucas certas, por bondade,

Na maldade, sempre erradas.

Qual amor?

Garoeiro – Natal, RN, 20 de setembro de 2014.

Olho esse mundo a viver

A onda do amor disjunto,

Depois de retroceder

De seu desamor conjunto…

Nada podemos dizer

Desse tristíssimo assunto,

Mas, amor de eu conhecer,

Finando jamais, defunto,

É-me o gozo do meu ser,

O prazer de que me unto,

Numa ânsia de querer

Muito, muito ficar junto…