Categoria: Poesia

Belas…

Garoeiro – Natal, RN, 3 de julho de 2014.

Muito bom de ver, mas não passa disso,

Esse corpo escultural da modelo,

Tão bela chama donde fogo é omisso,

Rosto de anúncio de shampoo de cabelo…


A essência da mulher é compromisso,

Cujo desejo tanto exige zelo;

Inútil pretender no movediço

Dessa carne, evitar o pesadelo.


Lindas, mas vazias, se admiradas

Numa vitrine, tais mercadorias,

Robôs das passarelas desgraçadas…


Querem parecer, e sem serem frias,

Um dia, verdadeiramente amadas,

Num desfile de adeus às galerias…

Esperança

Garoeiro – Natal, RN, 2 de julho de 2014.

Só queria estar contente,

Renascer, deste torpor,

Ver, de novo, essencialmente,

Quanto é bom viver de amor…


Fui amante permanente,

Mas amei como amador:

Sedutor, inconsequente,

Frequente conquistador…


Todas elas, no presente,

Operam, no bastidor,

Farsas, dramaticamente,

No palco onde fui ator…


Mas, não aceito o expediente,

Rejeito o fim do pretor;

Há de haver, na minha frente,

Um carinho salvador.


Emoção de peito quente,

Cinzas, volvendo o calor,

Promessa de chama ardente,

Paixão que me cure da dor.

Julho

Garoeiro – Natal, RN, 1º de julho de 2014.

Se  me  enjulhar, que venha logo agosto,

Ó, mês frio de mágoa, que me esgota:

Esta tristeza infinda no meu rosto,

Este gosto na boca de derrota…


Vir, logo, a Primavera é o pressuposto

Para vencer a nevoenta frota,

Com seus batéis forrados de desgosto,

No lento vai-e-vem da gaivota…


Para o meu peito,  julho  lembra  engano,

Tormentosa paz curtida na dor,

Triste, a suportar no meio do ano.


Vinde,  agosto,  setembro,  mês de flor,

Para que, longe do cais juliano,

Volte eu a sonhar e crer no amor!

De Esquerda…

Garoeiro – Natal, RN, 16 de maio de 2014.

[ Para: Frei Chico ]

É anômalo o que escapa

Ao demais, consolidado,

Saindo do mesmo mapa,

Sem poder ser enquadrado.


A regra sempre derrapa

Naquilo que é desregrado;

E, o ortodoxo, esfarrapa,

Por seu excepcionado…


Toda lei quer, na caçapa,

O que é sequenciado;

Porém, só há nova etapa,

No anômalo achado!


Oculta, na contracapa,

Deixada sempre de lado,

A anomalia dá tapa

No arcaico organizado!


Nunca fui primeira capa,

Nem, por eles, mencionado;

Mas, por não entrar na chapa,

É que me sinto avançado…

Dialética

Garoeiro – Natal, RN, 19 de abril de 2014.

Tu me deixaste, assim, feliz, primeiro

Porque, mais do que eu, te amar, ninguém;

Iremos, tu e eu, jamais além

Dum bem melhor, mais puro e verdadeiro…


Mas, igualmente, porque é maneiro

Viver sem precisar cuidar de alguém,

Sem, dando tudo, receber desdém,

Distante do universo interesseiro…


Sabendo que, louco, eu te amava tanto,

Achando que sem ti eu morreria,

Tu pretendeste silenciar meu canto.


Pois querendo o meu fim, naquele dia,

Ferindo mais do que suporta um santo,

Feliz restei, sem tua companhia…

Adolescente traição…

Garoeiro – Natal, RN, 14 de maio de 2014.

Era uma amizade tensa,

De segredos, confissão;

Eu, só naquela presença,

Via, na vida, razão…


Não há paixão de nascença,

Na história do coração;

Mas, em tudo, sem ofensa,

Puro sonho e sonho irmão…


Mil anos de coisa densa

Falava a conversação;

Aquela alegria intensa,

Nós dois, e a revelação!


Em risco de desavença,

Na pública relação,

No jardim, ou na despensa,

Sempre havia ocasião…


Profanando aquela crença,

Um dia, tomei-lhe a mão;

O anseio virou sentença,

Nossa amizade, paixão!


Chegou a sair na imprensa,

Exemplo de sedução…

Sei que em nós, hoje, ela pensa

Saudosa de traição…

Rota do AVC…

Garoeiro – Natal, RN, 12 de maio de 2014.

Sofri,  mesmo  preparado,

Toda a maldade em redor,

E, de tudo, o mal pior,

Qual seja, o terror de Estado.


Talvez, hoje, em tom menor,

Vencido, mas não derrotado,

Sigo dando o meu recado,

Sofrimento, sei de cor…


O escudo é bem desejado

Para ser defensor mor;

Mas, me defendo melhor

Pelos sinais, avisado…


Derramei sempre suor

Por ter antes controlado

O que vem sinalizado

Nos check-up do Incor…

Transparências para cegos…

Garoeiro – Natal, RN, 13 de maio de 2104.

Na moral do crime, o gesto

Da gente limpa, é babaca,

Que otário não dá protesto…


O que é justo não emplaca

No tempo em que é manifesto

O domínio da matraca…


Só que, igualmente detesto

Esse lixo que destaca,

Só corrupção, de resto…


Toda honestidade é fraca:

Onde manda o desonesto,

A transparência é opaca…


Se mente o juiz,  no  aresto,

Rindo, no altar-mor, a vaca,

Que é que vale ser honesto?

Falsa causalidade

Garoeiro – Natal, RN, 11 de maio de 2014.

Pensavas que eram crimes meus amores,

E, se atendo demais à quantidade,

Questiona, me desprezas, diz horrores,

Querendo fosse só leviandade.


Daqueles meus segredos anteriores,

Fizeste o inferno da atualidade,

Mesmo estivesse curado das dores,

Nem sentisse, de nenhuma, saudade.


O nó da paixão da mulher contém

Profunda exigência que o ensejo

Já tenha ou possa incluir ninguém.


Negar não quero o gozo do desejo,

Porém, se o amor em algo, hoje, me vem,

Só em ti eu penso e és tu que vejo…

Indesculpável

Garoeiro – Natal, RN, 10 de maio de 2014.

Pouco adiantava, já que tudo passa,

Que só fosse o meu amor dedicação:

- “Fogo de paixão, por mais que se faça,

Logo acaba, e todo o empenho é vão”.


Mas, prever o risco, evita a desgraça,

Que, ameaçados, amantes estão;

Justamente, é saber da ameaça

O que nos faz cuidar de proteção.


Só que as certezas dos apaixonados,

De antecipar o abismo são vazias,

Até, os pelos próprios pés, cavados…


Que era de risco o nosso amor, sabias;

Então, por qual favor, com quais cuidados,

Evitaste este fim que não querias?