Categoria: Poesia

Chorinho

Garoeiro – Natal, RN, 29 de janeiro de 2016.

Quando, indiferente à tua gincana,

Que anseia a rosa mas evita espinho,

A dor do mundo, no fim de semana,

Entrar no teu coração, de mansinho,

Vindo, do nó na garganta, uma gana

De achar teu tempo hipócrita e mesquinho,

Experimenta ouvir, na hora insana,

Um bom choro, quiçá, “Brasileirinho”,

E verás que o que a alma desengana,

Desencana no gozo do chorinho…

Na faca…

Garoeiro – Natal, RN, 28 de janeiro de 2016.

Quando alguém, por erro alheio,

É tornado poderoso,

Dono de fins, e do meio,

A pretexto de zeloso,

Nosso social receio

Cuidará como medroso.


Pois, o medo é o recheio

Do exercício odioso

Que deixa o poder sem freio:

Sob a aparência de honroso,

Ou, de justo, o mal mais feio,

Espalha-se, desditoso.


Deste inferno, sem recreio,

Só discurso cauteloso

De paciência, é o que leio:

Quando, sangrar o tinhoso,

Sem direito a esperneio,

É o desejo do meu gozo.

Dor suprema

Garoeiro – Natal, RN, 27 de janeiro de 2016.

[ Para: As vítimas da 13ª Vara Federal, Curitiba, solidariamente... ]

De meu dano carcerário,

Em todo o horror sofrido,

Ficou tudo, secundário:

O ferimento infligido,

A cruz de presidiário,

O mundo inteiro, perdido.


O mal, extraordinário,

Tão cruelmente sentido,

Naquele infame calvário,

Era eu ver como é traído

O valor judiciário,

Por um juízo bandido!

Sem hipocrisia

Garoeiro – Natal, RN. 26 de janeiro de 2016.

Após aquela idade inebriante,

Da gana de existir, tão pontiaguda,

Pomos na conta de principiante

Tudo o que arde, na velhice muda.


Em defesa do tempo declinante,

A memória do gozo, desajuda,

Daí, passar a ser tão importante,

O exercício de desdém que nos acuda.


Primam, os velhos, a todo momento,

Por desdenhar o ardor do sentimento,

Maturidade a impor, com arrogância.


Meus dias gloriosos, eu vos digo,

Catando os cacos do meu sonho antigo,

Foram-me, só, a adolescência e a infância.

Mundices…

Garoeiro – Natal, RN, 25 de janeiro de 2016.

Golpe,  é o Mundo,  que  desmembra,

Separa, isola, desune…

Sono, a vida, que deslembra

O seu Carrasco, impune…


E, o Poeta, é o que relembra

O gosto que ninguém pune:

- Teus dias felizes, lembra,

Destas mundices, imune? …

Legenda

GOSTO QUE ME ENROSCO

Garoeiro – Natal, RN, 24 de janeiro de 2016.

O Amor Incondicional

Mora com suas amadas,

A Felicidade e a Vida.


Na conjuntura atual,

Sentindo-se maltratadas,

Choram a graça perdida.


O comentário geral

Insta às duas desgraçadas,

Vingança d’alma traída.


E por golpe de punhal,

Se façam ambas vingadas

Da perdição procedida.


Da culpa no Principal,

É que vão sendo arruinadas

As condições, em seguida.


Eliminar o rival,

Por vantagens despojadas,

É a ouvida melhor pedida.


Matar, porém, o ideal,

Jamais salva as desejadas

Pulsões da causa iludida.


Nem ficar do Amor de mal,

Nas convivências erradas,

Ao desamor dá saída.


O tempo tradicional

Costuma pôr desgastadas

As propensões da ferida.


Nunca, sem bem radical,

Cobrem, as renegadas,

A delícia interrompida.


Tal crise habitacional,

Mais que as intrigas cobradas,

Cobra mão oferecida…

A morte do Amor

Garoeiro – Natal, RN, 23 de janeiro de 2016.

Amor, é força motora,

A negação do Mercado,

Esse altar da vil pletora

Que acumula o acumulado.


A relação amadora

Une o casal namorado,

Sem que a finança, tutora,

Se admita ao vinculado.


Cedo, a glória sonhadora,

E o compromisso jurado,

Viram cifras, na impressora,

Do dia-a-dia cobrado.


Doçura, vira salmoura,

O convívio, indelicado:

Pela Caixa de Pandora,

Só rompimento é chegado.


Já, a energia animadora,

Em que amava o ser amado,

Sucumbe à consumidora

Sedução do anunciado.


E a esperança,  precursora,

No Tempo,  desgovernado,

Dá que morto amor não fôra,

Está  sendo  assassinado…

Dois goles…

Garoeiro – Natal, RN, 22 de janeiro de 2016.

Vivo do sonho que abraça

Lutar que a maldição cesse,

E que a farsa se desfaça.


Por isso, enquanto padece,

Do vil tormento que grassa,

Meu peito,  rejuvenesce.


E, vai pulsar com a massa,

Por cuja calada prece,

Sonha a futura arruaça.


Só que meu martírio cresce,

Conquanto vê mais escassa

Repulsão ao que acontece.


Ah, se todo dia a graça,

Merecer não mais pudesse,

Em dois goles de cachaça…

Setenta!

Garoeiro – Natal, RN, 21 de janeiro de 2016.

Mil novecentos e quarenta e seis,

Ano em que nasço, após guerra sangrenta,

Faz voar meu dois mil e dezesseis

Para eu entrar na glória dos setenta!


Engana a Cronos, burla suas leis,

Jogo de abreviação inventa,

Por antes, dá que venha a minha vez,

Tão septuagenariamente lenta!


Encurta o curso desse calendário,

Que anseio ser um septuagenário,

Não mais servil ao tempo que me dás.


Porque ultrapassar setenta anos,

No justo livramento de enganos,

Sei que há de ser a idade, enfim, da paz!

O impasse

Garoeiro – Natal, RN, 20 de janeiro de 2016.

Quando ouço o Mundo Novo, surdamente,

Na dura pulsação de corações,

Eu sinto o sonho lindo de milhões,

O represado amor de toda a gente.


Aí, planto, com versos, a semente

Do que unirá a todas as nações,

Que contestais, por falsas ilusões,

Meu brado, mais que falso, impertinente.


Mas não me rendo à louva do demais,

Que já me salva o que não frequentais,

Pois, cai, historicamente, o impasse.


Ó, vós, que a mim cobrais outra atitude,

Vinde, comigo, onde o futuro nasce,

E vede o coração da juventude!