Categoria: Poesia

Náufrago

Garoeiro – Natal, RN, 27 de novembro de 2014.

Tu foste o que sempre almejo:

Amor que é prazer em si,

Um mar de pudor e pejo,

Que mais ardente não vi!


Só por nosso amor velejo,

Nas procelas que venci;

Na solidão que pelejo,

Mais fulge o que ali vivi.


Só que não darei ensejo

À busca do que perdi:

Já não prefiro o cortejo,

Vou ficando por aqui.


Pois és a mágoa que rejo,

Aquela que eu preferi,

A única que desejo,

Mas,  jamais  irei  a  ti…

Lógica herege

Garoeiro – Natal, RN, 26 de novembro de 2014.

Deus  houvesse,  porventura,

Não seria criador:

Perder tempo em criatura,

Sendo do Tempo o Senhor?!


Só gozaria a fartura

Do Pleno Conhecedor

De toda a Essência mais pura

No aparente enganador.


Da divina gostosura

Eternamente dispor,

Descarta toda a tortura

Própria do reprodutor:


Esse doente sem cura

Do instinto protetor,

Escravo da ditadura

Que é causa ao causador…

Olhando passarinhos

Garoeiro – Natal, RN, 25 de novembro de 2014.

A brisa,  a  vista  da  altura,

Céu azul o dia inteiro,

Têm sido a minha ventura

No abençoado viveiro.


Andorinhas de asa escura,

O bem-te-vi corneteiro,

Riscam, no ar, com doçura,

Os olhos do Garoeiro.


A andorinha, que é insegura,

E mostra um vôo ligeiro,

Mora lá na cobertura,

Sob o beiral cumeeiro.


Bem-te-vi, noutra postura,

Fez seu ninho no pinheiro,

Mas cumpre vigília dura

Do mais leal companheiro.


Faço, de tanto olhar, figura,

Para o povo, de estrangeiro,

Pois assim me vendo jura

Da loucura  passageiro…

Prelúdio

Garoeiro – Natal, RN, 24 de novembro de 2014.

Abandono é uma balela:

Ser só da dona, enfastia!…

Equivale a rir da cela,

Livre de quem nos prendia!…


E liberto da tutela,

Da algema da parceria!…

A aparência má revela

O Bem, que mal escondia!…


Mas, o abandonado anela

O prisioneiro que havia:

Porque sozinho é sem ela,

Sem aquela companhia…

Cozinheiro

Garoeiro – Natal, RN, 23 de novembro de 2014.

Como aceitar que é infeliz,

Mera lembrança mesquinha,

A comida que nos fiz,

Ou o prazer que nos vinha,

Do cozinheiro aprendiz?


Todo dia, na cozinha,

Naquele amor que te quis,

Pus na nossa comidinha

Os meus sonhos juvenis,

Em meio à fina farinha.


Só puro prazer condiz

Com o que a mesa continha:

Sem os colesteróis vis,

Sem fritura, sem sardinha,

Nossos assados sutis…


Hoje,  você  me  espezinha,

Fôra o passado, verniz,

Promessa, verso e pinguinha…

Mas,  a  gente  foi  feliz,

Comendo a comida minha…

Santo sacrilégio…

Garoeiro – Natal, RN 22 de novembro de 2014.

Saborear picanha é insanidade,

Que o ritual do cereal afasta…

Comer, porém, traz historicidade:

A nenhuma comida a razão basta.


Mas, na hierarquia da maldade,

A fundamentalista é mais nefasta!

É só olhar lá fora da cidade:

Na grama toda a nossa carne pasta…

Sempre irei acreditar no Amor!

Garoeiro – Natal, RN, 21 de novembro de 2014.

Bem lembro do carinho original,

O gesto sem nenhuma experiência,

Vendo arder-te amor em tua essência,

E a arder-me no meu rubro facial!


Já quem de amar se engana sofre igual,

Por mais que traia, agora, a inocência,

A contestar em vão sua vigência,

Neste mundo onde amar virou o Mal.


Pois, apesar de tudo, eu acredito,

Vendo a dor da Razão vencer o Mito ,

Na vitória do Grande Amor, inteiro,


Se tudo o que se perde nos ensina,

Esta ânsia que a todos nós domina:

Carinho sempre bom e verdadeiro!

Seremos todos irmãos…

Garoeiro – Natal, RN, 20 de novembro de 2014.

Aquarela do Brasil

Por mera conveniência

Busca a dor, religião;

Não há nada na essência,

Fora,  manifestação.


Tudo o que dói tem ciência

Da causa da negação;

Jamais duma transcendência,

Sofrimentos curarão.


Enquanto trata a potência,

Com os sonhos que virão,

Socorre toda a carência

Com tais deuses de ilusão.


E, se acede, dá anuência,

Parecendo igual cristão,

Penitente em penitência

Subverte a oração.


A fé só tem pertinência

Se for injusto o padrão:

Na futura coerência,

Não há nenhum deus no chão!

Fugitivo

Garoeiro – Natal, RN, 19 de novembro de 2014.

Tanto sofre o invejoso

Crendo que a sorte o refuga;

Desplugado do ditoso,

Só na cobiça se pluga.


Mas, um poeta, animoso,

Todo o mar de tudo suga

Em tudo o que é poderoso,

E inveja alguma aluga.


Neste sonho, tão gostoso,

Que o desejo em mim conjuga,

De poesia é meu gozo,

E o meu verso, minha fuga…

Toada

Garoeiro – Natal, RN, 18 de novembro de 2014.

Nas mil escolhas que tecem

Querem amores, um ninho:

Só que andando prevalecem

As pegadas do caminho,

Onde além de rosas crescem

Todos os tipos de espinho…


Se me, ah! se me quisessem,

Talvez, com só um grãozinho

Desse amor, que elas esquecem,

Mas que é delas, inteirinho,

Pudesse, sem que me dessem

Mágoas, ser feliz sozinho…