Na foz…

Garoeiro – Natal, RN, 10 de dezembro de 2016.

Em desfecho iminente

Só existe amor barato,

Pois o único expediente

É o gozo imediato.


Bem gostoso essencialmente

Fica o físico contato,

Se o amor do ambiente

Mais sonha o que é de fato.


Naquela fuga presente

Os fugitivos do ato

Vão gozar no transcendente,

Na foz do prazer intato…

Na fogueira

Garoeiro – Natal, RN, 9 de dezembro de 2016.

De tudo o que nega a História,

Sua luta pioneira

É manter na trajetória

A construção verdadeira.


É causa insatisfatória

De dar ao Tempo canseira,

Ante o grito de vitória

Da retrógrada caveira.


Na conjuntura é notória

A conversão rotineira

Da mentira aleatória

Nas verdades que se queira.


Mas a mentirosa glória

É uma onda passageira,

Pois toda a obra da escória

É queimada na fogueira.

Pai Nosso

Garoeiro – Natal, RN, 8 de dezembro de 2016.

Decorre das divindades

Que contra o Mal inventamos,

O progresso das maldades

Sobre o Bem que mais amamos.


Graças nas posteridades,

Porvir que rejubilamos,

São as estabilidades

De tudo o que rejeitamos.


Das tais adversidades

Injustas que mereçamos,

Um deus de boas vontades

Garantiria onde vamos.


Mas deuses têm faculdades

Do molde em que fracassamos:

Em mentirosas verdades,

Fazemos que acreditamos…

Gravitação

Garoeiro – Natal, RN, 7 de dezembro de 2016.

Assim como a bela Lua,

Vago satélite igual:

No nosso amor se insinua

Força gravitacional.


Só falsamente flutua

Entre nós dois um final,

Que a atração do amor atua

Num movimento orbital.


Pouco ver que contribua

Contra o fim espacial,

Nada em mim esquece a tua

Ligação essencial.

O recheio

Garoeiro – Natal, RN, 6 de dezembro de 2016.

Trata bem do ser alheio,

Quase sempre maltratado,

A louva que acerta em cheio

No louvor aprofundado.


A exaltação é um passeio

No aparente gostado;

Nunca imenso manuseio

Vai medir gosto provado.


Se aos milhares do correio

Meu segundo foi clicado,

É que a ilusão do e-mail

O Nada mostrou somado.


Enquanto bom é um veio

Minando desenterrado:

Seu original recheio

Raro olhar verá jorrado…

Outro enredo

Valsa para Quarteto de Cordas

Garoeiro – Natal, RN, 5 de dezembro de 2016.

Aceita o amor abordagem

Que fazem todos, segredo:

Amor sem levar vantagem,

Virou do amor arremedo.


Parece mera bobagem

Jogar o nosso brinquedo:

Do meu lado a coragem,

Você aí com o seu medo.


Amante segue a miragem

E se lança do penedo,

Enquanto casais à margem,

Nem movem a amor um dedo.


Na curtíssima viagem

Onde o bem acaba cedo,

A paixão pede passagem

Desfilando um outro enredo…

Meu aniversário!

Garoeiro – Natal, RN, 4 de dezembro de 2016.

Só a mais alta paz minh’alma alenta,

Neste prazer da vida que idolatro,

Feliz por vir comemorar setenta,

Neste dezembro, em pleno dia quatro!


Senti quando acordei por luz isenta,

Meu coração iluminado atro,

Pulsando a Poesia que afugenta

Toda a moderna cena em seu teatro.


Meu mundo faz história na maldade,

Mas é por mim vencido nesta idade,

Completamente fora de seus planos.


Venci por renascer de toda a morte,

Por contra ele não mudar meu norte,

Cantando o amor nos meus setenta anos!

Longo prazo…

Garoeiro – Natal, RN, 3 de dezembro de 2016.

Além de mistura escassa,

A retenção que acumula,

Tudo o que perdura abraça,

No gozo de sua gula.


Atrás de inchar a carcaça,

Pelos crimes perambula,

Em cada sonho que cassa,

Em cada avanço que anula.


Porém toda esta desgraça,

Prescrita por sua bula,

Nas joias do tempo é jaça,

Que o passado inocula.


Mas na comunista taça,

Só o prazer geral emula,

Brindando a tudo o que passa,

Contra o que a posse simula…

A lareira

Garoeiro – Barcelona, Espanha, 2 de dezembro de 2016.

É ave linda a voar sem asa

Meu gosto de lembrança sonhadeira,

Tanto de volta à paterna casa,

Guardando sonhos de uma infância inteira.


Sem fogo ver, jamais, nem lenha em brasa,

Na grande sala havia essa lareira,

Cuidada no apreço que extravasa

Os nexos que a utilidade queira.


Fogueira inútil de não ser acesa,

Prestante ao uso de estranha mesa,

Foi sempre seu não ser na residência.


Falsa lareira cuja existência

Faz lembrar pessoal tão conhecido,

Que mostra o que é sem nunca ter sido…

O bem maior

Garoeiro – Barcelona, Espanha, 1º de dezembro de 2016.

Que foi amar o bem da minha vida,

Pertinho do fim, assim considero,

Não por faltar ao mais valor e esmero,

Nem por toda ilusão não conseguida.


Nossa felicidade permitida,

Imposta a oscilar em torno de zero,

Quer resgatar, num balanço sincero,

O essencial da causa perseguida.


E só ao que eu amei essencialmente,

Propende sempre a alma no presente,

Recuperando amores do passado.


A ponto, então, de mais fazer sentido,

Não o que tive a amar por ter vivido,

Mas o bem que vivi por ter amado!