O meu olhar…

Garoeiro – Natal, RN, 26 de setembro de 2016.

O não visto, de que cuido,

Posto em tudo, evidente,

Por comportamento fluido,

É julgado inexistente.


Sem o intuito é descuido

A visão do imanente:

O que amo é que recuido,

Com meu olhar de vidente…

Por Jacqueline!

Garoeiro – Natal, RN, 25 de setembro de 2016.

Cuida a saga do aforisma,

Recomendar paciência;

Porém, não, com o aneurisma,

Que a amiga dá ciência.


Ninguém vive por sofisma

De a vida estar na iminência,

Nem sobreviver na cisma

Pode a humana resistência.


Tanto amor, tanto carisma,

Solidária competência,

Que o “Varal” batiza e crisma

Em seus anos de existência.


Consola olhar pelo prisma

De casual ocorrência;

Mas meu desconsolo abisma

Por tão injusta inclemência.

Asa

Garoeiro – Natal, RN, 24 de setembro de 2016.

Naquela praia bendita,

Só com pensamento à toa,

Numa conversa bonita,

Era o rei da vida boa.


Muita gente hoje cita,

Antes de estar sem coroa:

- Foi, na última visita,

Fisgado pela leoa.


Se a boca do povo dita,

Em boato a voz ressoa:

Ao mar de amor que os habita,

Nem se chega de canoa.


E o louvor que felicita

O bem daquela pessoa,

Vira asa que excita

O desejo que não voa…

Vivendo poesia

Garoeiro – Natal, RN, 23 de setembro de 2016.

Criar poema novo eis a paixão

Que gosto de viver diariamente,

Alheio ao que já fiz e independente

Da história acumulada de emoção.


Sendo parte, porém, da produção

Da obra que me sai virtualmente,

Cuidar do que já fui, de mim ausente,

Faço, às vezes, recapitulação.


Mas sinto acontecer nesse momento

Estranho e preciso sentimento:

O que postei de meu, de pessoal,


Revela conteúdo adicionado,

Tivesse o post algo transcendental,

E houvesse a Poesia me postado…

Conhecidos…

Garoeiro – Natal, RN, 22 de setembro de 2016.

Faz bem ao coração ficar lembrando,

Um por um que a gente conhecia,

Na amizade, no amor, na simpatia,

Mas acabou no nunca mais passando.


Lugares, nomes, rostos, vão voltando,

Um fato, um caso, uma comparsaria,

Detalhes em que a vida acumplicia

Parceiros só de estarem se encontrando.


Rio a valer no curso da viagem,

Se ao reviver, na mente, uma passagem,

Refaço o bom humor da ocasião.


Na legião de velhos conhecidos,

Mesmo fantasmas já de mim perdidos,

Vão sendo achados no meu coração…

Velho brado

Garoeiro – Natal, RN, 21 de setembro de 2016.

Já voltareis, mais outra vez, ao brado:

“Povo unido, jamais será vencido! ”,

Conquanto fosse: “Unido, e bem armado”

O que coubera com melhor sentido.


Não há, depois de haver aqui chegado,

Propor-se o mesmo jogo repetido,

E o nosso lado entrar, mobilizado,

Na construção do que está destruído.


Melhor, enfim, ao povo, que acabasse

A tal de conciliação de classe,

Nesse embalo do mais completo atraso.


Se foram os avanços todos vãos,

Bradar o velho: “Às armas, cidadãos! ”,

É a única opção que vem ao caso…

Neurociência

Garoeiro – Natal, RN, 20 de setembro de 2016.

De fato vamos vivendo

Esta vida sofredora,

A ver se verte o não sendo,

Uma sorte redentora.


De achar que se é querendo,

Feita a esperança tutora,

Vivemos, mas esquecendo:

É não ser, como se fôra…

Aspiração fugaz…

Garoeiro – Natal, RN, 19 de setembro de 2016.

Lá, depois do esquecimento,

Já vigente a Nova Era,

Bem ser lembrado quisera.


Do atual que desespera,

Na luz do discernimento,

Será o futuro, isento.


Pois chegará o momento

De transformar a quimera

Numa doméstica fera.


Em sendo o que há, já era,

Vencerá o pensamento

Do humano congraçamento.


Por isso espero no vento,

Que o devir, por quem me dera,

Reconheça o que fizera…

Aquele sobrado…

Garoeiro – Natal, RN, 18 de setembro de 2016.

Eu amo a vista do dia,

Céu pelo mar contornado,

Mas na cena que extasia,

Tanto esse pobre sobrado

Traços pinta, de agonia,

Que dá ao olho deslumbrado,

Da visão que ele queria,

Fundo tristemente olhado.


Falta, talvez, a alegria,

Porque além de abandonado,

Sob o olhar da poesia,

Sinto, elevada ao quadrado,

Doída melancolia,

Por vê-lo já arruinado,

Sem nenhuma serventia,

Sem ser, jamais, habitado…

Cicatriz

Garoeiro – Natal, RN, 17 de setembro de 2016.

Conquanto sangre o corte doloroso,

E hemorragia em si é um tormento,

Vai se coagular gelatinoso

Aquele sangue sobre o ferimento.


Na casca o estancamento precioso

Regenera o tecido cem por cento,

E o anseio de restauro espantoso,

Traz cura no restabelecimento.


Se o corte for profundo infelizmente,

Vai nos marcar, porém, eternamente,

Com sensação de dor na cicatriz.


Também quando alguém corta o ser amado,

Por mais que estiver cicatrizado,

Dói para sempre o corte no infeliz…